O Idoso e o álcool

Por: Afonso Paixão (*)

O envelhecimento populacional está a ocorrer de forma muito rápida, principalmente em países em desenvolvimento, levando a importantes desafios sociais e económicos. A prevalência de doenças crónico-degenerativas reforça a necessidade de ações eficazes no sentido de promover melhor qualidade de vida aos idosos.
 O uso abusivo de álcool é considerado um problema de saúde pública e a sua abordagem é da responsabilidade de todos os níveis do Sistema Nacional de Saúde.
 .

À data dos Censos 2011 residiam em Portugal Continental 10 047 083 habitantes, dos quais 15% tinha menos de 15 anos e 19% tinha 65 ou mais anos.Para 2020, embora a maioria dos cenários de previsão aponte para o não decréscimo da população, espera-se que a proporção de jovens (0-14 anos) desça para 14% e a de população de 65 e mais anos aumente para 21%, incluindo este valor 6% de indivíduos com 80 ou mais anos2 (portal do INE, 2012)

2 Valores referentes a Portugal, incluindo as Regiões Autónomas, de acordo com os resultados do cenário central das “Projeções de população residente em Portugal, 2008-2060” (publicação disponibilizada no portal do INE em 19 de Março 2009).

3 Número médio de crianças vivas nascidas por mulher em idade fértil (dos 15 aos 49 anos de idade), admitindo que as mulheres estariam submetidas às taxas de fecundidade observadas no momento.

4. O peso da população idosa mantém a tendência crescente, em consequência da diminuição da fecundidade e do aumento da longevidade. Os resultados provisórios dos Censos 2011 mostram que o índice de envelhecimento da população é de 131, o que significa que por cada por cada 100 jovens há hoje 131 idosos (65 ou mais anos). Em 2001 este índice era de 104. Verificou-se igualmente um agravamento do índice de dependência de idosos na última década, que passou de 25 para 30 idosos, por cada 100 pessoas em idade ativa (INE, 2011b).

Embora o envelhecimento seja um processo natural, leva o organismo a várias alterações anatômicas e funcionais, com repercussões nas condições de saúde e nutrição do idoso. Associadas às alterações decorrentes do envelhecimento, mudanças como a reforma, perda do papel social, perda de amigos, solidão e isolamento social, deixam os idosos vulneráveis e mais propensos à intensificação de hábitos menos saudáveis, como o consumo abusivo de álcool e o tabagismo.

O uso abusivo de álcool é considerado um problema de saúde pública e a sua abordagem é da responsabilidade de todos os níveis do Sistema Nacional de Saúde.

O álcool é a sustância psicoativa mais usada pela humanidade desde os tempos mais remotos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica os consumos de álcool em: Consumo de risco; Consumo nocivo; Dependência.

Consumo de risco – é um padrão de consumo que pode vir a implicar dano físico ou mental se esse consumo persistir.

Consumo nocivo – é um padrão de consumo que causa danos à saúde, quer físicos quer mentais. Todavia não satisfaz os critérios de dependência.

Dependência – é um padrão de consumo constituído por um conjunto de aspectos clínicos e comportamentais que podem desenvolver-se após repetido uso de álcool, desejo intenso de consumir bebidas alcoólicas, descontrolo sobre o seu uso, continuação dos consumos apesar das consequências, uma grande importância dada aos consumos em desfavor de outras actividades e obrigações, aumento da tolerância ao álcool (necessidade de quantidades crescentes da substância para atingir o efeito desejado ou uma diminuição acentuada do efeito com a utilização da mesma quantidade) e sintomas de privação quando o consumo é descontinuado.

De acordo com alguns estudos epidemiológicos, cerca de um terço da população idosa começa a fazer uso do álcool tardiamente. São comuns os problemas relacionados ao abuso do álcool em indivíduos maiores de 60 anos, mas por serem pouco reconhecidos são denominados por alguns autores de “epidemia invisível”.

Um factor importante a ter em conta, é o facto de o álcool interferir no tratamento de outras patologias por um lado, e poder ser o desencadeador de outras patologias. Por exemplo um não hipertenso passar a ter problemas de tensão alta, ou um não diabético, passar a sê-lo.

Estudos realizados em amostras clínicas evidenciaram um aumento significativo do uso de álcool na população idosa. As pesquisas mostram que 6 a 11% dos pacientes idosos admitidos em hospitais gerais apresentam sintomas de dependência alcoólica, inclusive as estimativas de admissão por alcoolismo nos serviços de emergência equiparam-se às admissões por enfarte. Apesar disto, as equipas hospitalares reconhece menos casos de alcoolismo em idosos do que em pacientes mais jovens. É importante refletir sobre estes números, principalmente se tivermos em conta que em Portugal cerca de 79% dos idosos consome álcool, e destes 25% consome vinho diariamente.

O consumo excessivo de álcool interfere de várias maneiras na nutrição adequada do idoso, pois compete com os nutrientes desde sua ingestão até sua absorção e utilização. Quanto maior a participação do álcool na dieta, menor a densidade e qualidade nutricional da alimentação.

Com o envelhecimento, o líquido corporal diminui levando a uma diminuição da diluição do álcool no sangue, acarretando uma sensibilidade maior aos efeitos do álcool do que nos jovens.

O alcoolismo pode levar ao envelhecimento prematuro do cérebro ou acelerar o processo normal de envelhecimento do cérebro, levando à deficits no funcionamento comportamental e intelectual por danificar principalmente o lobo frontal do cérebro.

Pode acelerar o desenvolvimento da instabilidade na postura levando as quedas. No idoso o problema do alcoolismo pode estar camuflado por doenças clínicas ou psiquiátricas como depressão, insônia, doenças cardiovasculares e quedas frequentes.

Os factores de risco para o alcoolismo nos idosos são vários-. Estes factores podem ser de três ordens, factores de risco biológicos, psicológicos e socioculturais.

Entre os factores de risco biológicos importa assinalar, os factores hereditários, ser do sexo masculino, existência de doenças físicas e a idade de início de consumos.

No referente aos factores de risco psicológicos, a reforma, a perda de amigos, problemas familiares ou conjugais surgem como os mais relevantes.

A pressão dos amigos, a falta de alternativas para ocupar o tempo e a cultura da tasca surgem como os factores sociais mais relevantes.

Tendo isto em conta e olhando um pouco para o cenário nacional, somos confrontados com o facto de a maioria viver na ociosidade, aposentados, que já passaram pela experiência de perderam algum ente querido ou amigos, normalmente têm patologia de base ou já tiveram internamentos hospitalares, muitos têm insônia, existindo ainda uma grande percentagem que foi “abandonada” pela família, e não têm motivação alguma. Bebem para aliviar a tensão do dia-a-dia, esquecer as mágoas. Bebem porque se sentem sós.

Podemos então fazer uma divisão do alcoolismo no que toca aos idosos: os sobreviventes e os reactivos.

Os sobreviventes seriam aqueles que iniciaram o consumo durante a juventude. Com longa história de consumo de álcool que perdura até à velhice. E os reactivos Consumidores tardios que começaram a consumir devido ao stress causado por acontecimentos de vida. Como por exemplo a perda da esposa ou a perda do papel social.

O diagnóstico do alcoolismo é feito através de uma “entrevista” com o paciente e sua família e exame físico. Os exames de laboratório não servem para diagnosticar alcoolismo, porém podem dar “pistas” se o paciente faz uso crônico de álcool, e conseguem dar uma ideia aproximada do grau de lesão de alguns órgãos devido aos efeitos tóxicos do álcool, como por exemplo, no fígado.

Existem ainda alguns sinais e sintomas são uteis na identificação desta patologia. Sintomas físicos a nível neuromusculares (tremores, caibras e parestesias) e neurovegetativos (suores, taquicardia e hipertensão ortostática) e sintomas psicológicos (ansiedade, humor depressivo, irritabilidade, insónias, alteração de comportamento face ao álcool, desejo obsessivo de álcool).

Não existe um tratamento ideal para o alcoolismo. Por isso os casos devem ser considerados individualmente, a partir de um bom exame clínico, deve-se indicar o tratamento mais apropriado para cada pessoa de acordo com o grau de dependência e do ponto de desenvolvimento da doença em que se encontra a pessoa, o suporte familiar e a rede social que esta possui.

É preciso lembrar também que as recaídas são comuns nos pacientes com diagnóstico de alcoolismo e que na grande maioria dos casos, o próprio paciente não consegue perceber o quanto está envolvido com a bebida, tendendo a negar o uso ou mesmo a sua dependência dela. Nestes casos, pode-se começar o tratamento ajudando o paciente a reconhecer seu problema e a necessidade de tratar-se e de tentar abster-se do álcool. A indicação de internamento, pelo menos como fase inicial de desintoxicação, costuma ser a regra.

No processo de recuperação de uma pessoa que sofre de alcoolismo é muito importante envolver a família, quer na fase inicial de ajuda na tomada de decisão, quer depois no processo de manutenção da abstinência, para ajudar a lidar com os vários sentimentos e dificuldades que vão surgindo ao longo do processo de reabilitação.

Existem algumas barreiras que dificultam a identificação e consequentemente o tratamento dos problemas de alcoolismo nos idosos.

Entre elas é importante assinalar que muitas vezes o estigma, de os idosos terem de beber, ou ele sempre bebeu, dificulta o tratamento. Assim como as dificuldades que este apresente deverem-se simplesmente à idade e não ao consumo de álcool.

A má classificação de sintomas (pensar que os sintomas do abuso de álcool), como deficit cognitivo ou transtornos do humor, se devem à idade do paciente ou atribuir os efeitos físicos do abuso a traços de personalidade como “ele sempre dormiu/comeu mal” é também uma dificuldade que surge muitas vezes.

Assim torna-se importante estar atento a questões como a deterioração lenta dos cuidados pessoais e das atividades domésticas que, na ausência de doença orgânica que justifique estes sintomas (pode estar associada ao uso de ansiolíticos/ benzodiazepinas) podem significar o abuso/dependência de álcool.

Estas questões levam a uma menor qualidade de vida, não só pelas quedas evidentes que podem surgir mas também por outros factores, como as desnutrição e quadros depressivos/demenciais que podem surgir, como foi descrito acima.

CONCLUSÃO

Os idosos tornam-se muitas vezes mais vulneráveis ao uso de álcool e tabaco, por via da perda de papéis, solidão, etc., e isso aos poucos poderá gerar um grande problema populacional, já que o número de idosos no mundo está a aumentar. Esta faixa etária é especialmente complicada pois, os idosos usualmente apresentam vários problemas de saúde, uso de muitos medicamentos, que, combinados com as substâncias nocivas presentes no fumo e álcool, tornam os idosos mais susceptíveis a interacções, agravamento do quadro instalado, dificuldade de recuperação e interação social.

Torna-se por demais relevante, a adopção de um estilo de vida saudável, não só porque este previne uma série de doenças físicas, como também porque este promove a interação entre as pessoas e o natural sentimento de pertença e auto eficácia, tão necessário em todos nós.

Bibliografia
Baltes, M.M. (1995). “Dependency in old ages: gains and losses”, Current Directions in Psychological Science.
Bandura, A. (1996). “Social Foundations of Thought and action: o social theory”, Englewood Cliffs, NJ, Prentice-hall.
DGS (Direção Geral de Saúde) (2012). Programa Nacional para a Saúde de Pessoas Idosas. Ministério da Saúde. Lisboa
E. Spar, James, La Rue, Asenath, “Guia da psiquiatria geriatric”, Climepsi editores.
Ferreira FAG (1990), Moderna Saúde Pública. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 6º Edição.
Jean Adés e Michel Lejoeux, “Comportamentos Alcoólicos e o seu Tratamento”, Climepsi editores.
Hall, M.R.P., Maclaennan, N.W.J., Ley, M.D.WW., “Cuidados médicos ao doente idoso”, Climepsi editores.
Marc A. Schuckit, “Abuso de álcool e drogas”, Climepsi editores.
Marlatt, G. & Donovan, D. (2005). Relapse prevention. Maintenance in the Treatment of addictive behaviors. New York: The Guilford’s press.
Prochaska, J. & DiClemente (1982), “Transtheoretical therapy: Toward a more integrativa modelo f change. Psychoterapy: Theory, research and practice.
Rogers, C.R. (1980). “A way of Being”, Boston, Houghton, Mifflin.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.