Saúde mental esgotou Fórum Lisboa

SAÚDE MENTAL // A Câmara Municipal de Lisboa realizou,  nos dias 26 e 27 de Setembro, um fórum alargado sobre o estado da Saúde Mental. Este fórum contou com centenas de técnicos participantes da área social e de saúde mental. A necessidade de alterar paradigmas foi uma das principais conclusões a que se chegou. // Por: Humberto Silva

Conhecida muitas vezes pelo parente pobre da saúde, a saúde mental tem sido alvo nos últimos anos de várias tentativas

de reabilitação e reformas que sucessivamente têm criado boas ideias e bons projectos mas que vão ficando na gaveta ou pelos projectos-piloto que acabam por não ser alvo de implantação a nível nacional. A principal razão é, muitas vezes, a falta de orçamento.

Apesar disso a Câmara Municipal de Lisboa decidiu realizar um fórum alargado sobre a saúde mental para fazer um levantamento do seu estado actual e de como muitos desses projectos estão a ser implementados. Maria de Lurdes Rodrigues foi a coordenadora destes dois dias de debate que trouxeram ao Fórum Lisboa dezenas de técnicos da área social e saúde mental assim como centenas de participantes  a um evento que esgotou as inscrições.

A saúde mental, (…) é também uma questão de relações sociais

SAÚDE MENTAL NA ADOLESCÊNCIA E NA COMUNIDADE

O primeiro dia foi dedicado à saúde mental dos jovens e adolescentes. Várias mesas debateram um tema tabu nas idades mais jovens. Esta aparente falta de atenção para com a saúde mental dos jovens passa por vários factores. Primeiramente, um mais transversal, em que a saúde mental é vista como um gasto que “não dá retorno” e a tentativa de criar equipas especializadas de saúde mental – uma absoluta necessidade – é muitas vezes incompreendida. Depois porque os adolescentes não são uma população muito visível na saúde. Os adolescentes não frequentam os centros de saúde com regularidade, pelo que é mais difícil assinalar problemas de saúde mental. No entanto há cerca de 20% de prevalência de doenças mentais nos adolescentes e o suicídio é a terceira causa de morte da adolescência. O estudos indicam que também é nesta fase da vida que surgem  cerca de metade das doenças mentais.

É a partir destes dados que os participantes destes painéis afirmam que o modo de tratamento das doenças mentais em jovens tem de mudar.

O internamento e o tratamento compulsivos foram, e em muitos casos continuam a ser, a solução mais imediata para tratar as crises de saúde mental. Muitos dos projectos apresentados ao longo destes dois dias têm tentado mudar esse paradigma.  Dar a voz aos adolescentes, fazê-los participar, perceber as suas necessidades e contextos implica perceber que a saúde mental não deve ser reactiva. Para isso é preciso que a sociedade dê importância a este sectores da saúde e perceba que é necessário criar equipas especializadas.

Um dos passos para ter essa atenção é perceber que a saúde mental não se fecha em si mesma.  O Antropólogo Francesco Vacchiano chamou a atenção para o facto de o contexto histórico social também fazer parte do diagnóstico de saúde mental, assim como os tratamentos aplicados. Há que ter em conta o contexto socio cultural. A saúde mental, para este antropólogo, é também uma questão de relações sociais.

Por exemplo, o processo de diagnóstico foi perdendo cientificidade. Por exemplo: ao tratar uma refugiada do Iraque podemos achar que a sua perturbação pode ser de stress pós traumático, por ter estado na guerra, mas não é necessário que assim seja. O contexto é importante mas  não só. Assim como se pode correr o risco do tratamento ser apenas médico ou apenas social quando não se podem separar um do outro.

Por sua vez,  o arquitecto e investigador Godofredo Pereira fez uma intervenção sobre como os espaços públicos podem influenciar a saúde mental daqueles que os utilizam.

Todos estes elementos, aparentemente extra-clínicos, devem ser tidos em conta quando falamos de saúde mental.

A SAÚDE MENTAL: EQUIPAMENTOS, RESPOSTAS E INSTITUIÇÕES

O segundo dia foi dedicado ao estado e respostas da saúde mental.

Marco Paulino, coordenador do serviço de ambulatório do Serviço de Psiquiatra do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, referiu que nos anos da crise, os cuidados de saúde mental foram suportados pelos chamados cuidados informais (família, amigos, etc.) que atenuaram consequências mais graves.  Com a estatística preocupante de 30% de doentes que não recebem qualquer apoio Marco Paulino lembra que o maior peso dos internamentos em saúde mental ainda está nos privados, nomeadamente as misericórdias. Nota que é preciso equipar os centros de saúde pública para tratar da saúde mental, e as equipas que lá estão são “fictícias”. É preciso também perceber que não basta internar. É preciso acompanhar. A maior parte do orçamento gasta-se nas urgências mas depois deixa-se o utente ao abandono. A “desinstitucionalização” do utente está atrasada. Muitos ficam a arrastarem-se nas camas dos hospitais sem serem devolvidos às famílias precisamente por não haver esse apoio no pós hospitalar.

É precisamente desse apoio que falou o Director do Mestrado em Psicologia Comunitária do ISPA, José Ornelas. Ao doente deve ser dado acesso aos recursos da comunidade. Ao invés disso continua a manter-se o doente mental segregado em vez de o reintegrar na sociedade. Considera este docente que, se a tecnologia já permite uma maior integração do doente mental, então as leis devem deixar de olhar para estes cidadãos como excepções. É preciso fazer uma luta de direitos civis como foi feita para os afro-americanos e as mulheres.

As leis devem deixar  de olhar para estes cidadãos como excepções

 

APOIO NO TERRENO. CUIDADOS PRIMÁRIOS

Como exemplo de intervenção preventiva, a Câmara Municipal de Lisboa aposta numa rede de cuidados de saúde mental aos seus trabalhadores. Tem psicólogos do trabalho espalhados por toda a cidade, de modo a intervir nos seus 7335 funcionários. Destes, 2168 estão referenciados em psicologia e 809 são utentes das consultas. A CML faz assim prevenção de saúde mental no indivíduo e na instituição.

Quem sofre também são os técnicos de saúde mental e cuidadores. Elias Barreto, psicólogo no CHPL apontou os casos de burn out nas profissões da saúde mental e como as expectativas excessivas e o lidar com os utentes pode causar uma desmotivação pelos resultados deixarem de ser os esperados. Fazer uma boa gestão das equipas para evitar estes casos é fundamental.

Para falar sobre a intervenção directa na população, o Professor António Bento, Director do Serviço de Psiquiatria Geral e Transcultural  do Centro Psiquiátrico Hospitalar de Lisboa, falou sobre a sua intervenção com os sem-abrigo. António Bento considera que os casos sociais dos sem-abrigo não podem ser considerados casos isolados de casos de saúde e as instituições sozinhas não conseguem resolver este problema. Com problemas de álcool, droga e outras patologias, os sem-abrigo de Lisboa são uma população abrangente, de todo o mundo, desde o Congo ao Paquistão. Para sair do ciclo a que chama “Psiquiatria de Silo”, que responde ao automatismo da “Urgência; Consulta; Internamento”

António Bento defende uma intervenção directa dos técnicos: Sair à rua, estar no meio ambiente dos sem-abrigo e perceber que não é só a pobreza, o álcool ou a esquizofrenia que causam sem-abrigo. É necessária uma intervenção psiquiátrica especializada para perceber cada um dos casos e perceber que não são apenas casos sociais. O CHPL tem também uma consulta externa de grupo onde recebe às quintas feiras cerca de 1331 utentes, 660 dos quais são sem-abrigo. Este projecto é uma das maiores consultas de saúde mental abertas do mundo.

Um dos projectos que tenta fugir aos paradigmas instalados é o da Unidade de Saúde Familiar da Baixa. O responsável pelo projecto, o médico Martino Gliozzi, falou acerca de uma unidade de saúde familiar diferente, com uma abordagem multidisciplinar e biopsicossocial.

Aquando o diagnóstico há sempre uma abordagem que vai para além do corpo. Olham também para a questão social e de saúde mental. Num posto com 29% de utentes de 94 nacionalidades que não a portuguesa, esta abordagem revela-se mais importante ainda. Estes técnicos de saúde não usam bata médica, não recebem delegados de informação médica, reúnem semanalmente com todos os elementos médicos e não médicos, inteiram-se e participam dos projectos sociais e fazem aquilo que se chama de prescrição social, já que 20% das consultas são por questões sociais e não médicas. Mas não deixam de apoiar o utente, encaminhando-o para o apoio social.

… dar espaço a estas pessoas para que possam construir os seus próprios discursos e não serem corrigidos para os discursos da norma.

AUTODETERMINAÇÃO E VIDA INDEPENDENTE

Uma das questões abordadas pelo fórum e que é transversal à saúde mental e deficiência é a da autodeterminação e independência do doente.

Fátima Paulo, da Associação contramão e mãe de um jovem com uma perturbação do espectro do autismo veio levantar a importância de analisar como a sociedade integra as pessoas com algum tipo de limitação ou deficiência. O modo como a sociedade está construída é um modelo social baseado na maioria, deixando as minorias como excepções. O que significa que os modelos actuais de tratamento identificam quem tem uma deficiência ou uma doença como algo a ser “tratado” ou “corrigido” e que é preciso devolver à “norma”. Fátima Paulo defende que que aquilo que olhamos como “diagnósticos” deve passar a ser tratados como “identidades” com direitos próprios e assim integrados na sociedade, ao invés de corrigidos.

Devemos dar espaço a estas pessoas para que possam construir os seus próprios discursos e não serem corrigidos para os discursos da norma. Dois exemplos simples aplicam-se às rampas de acesso que durante anos foram vistas como algo a acrescentar à norma. Devem passar a ser a norma. Outras, no caso do autismo, as terapias de normalização e de correcção devem ser recusadas e passar a dar voz às formas de viver dos doentes. Integrar e não corrigir. Se o comportamento é comunicação devemos aceitar esse comportamento e não corrigi-lo. Permitir ao doente poder decidir. Dizer “não” é também uma competência social.

A DOENÇA MENTAL

Já quase no fim, o neurologista Alexandre Castro Caldas abordou o como as demências estão a crescer não são apenas um problema de saúde mental e sim social e jurídico. De novo, às pessoas dementes é necessário criar condições de integração e rotina para que não se sintam segregadas. O Psiquiatra António Coimbra de Matos falou de como a depressão actua sobre a identidade, o poder pessoal e alienação dos indivíduos.

PROJECTOS DE INTEGRAÇÃO

Apesar das ideias discutidas neste fórum não estarem generalizadas existem alguns projectos pilotos a partir dos quais se podem tirar ilações positivas de integração e quebra de paradigmas.

O projecto Quando o Teatro Vai a Casa, apresentado pelo mestre em teatro, António Vicente, explica-nos que é possível fazer o idoso reviver vidas passadas, experienciar identidades que não teve e brincar quando não teve infância. O trazer até ao teatro estas pessoas permite uma reintegração com comunidade com resultados difíceis com outros métodos.

Outro bom exemplo é o que foi trazido por Susana António da Associação Fermenta, através do projecto A Avó Vem Trabalhar. A Ideia consiste em manter a idosa em actividades que por norma são dirigidas a pessoas mais novas. Porque não continuar a vestir no dia-a-dia como as pessoas que vão trabalhar? Porque não ir a concertos, teatro, festivais? Porque não comer sushi em vez de bacalhau?  A ideia é contrariar o paradigma da velhice derrotada pela doença e pelas agruras da vida e fazer sentir ao idoso que, apesar da realidade da sua saúde, é-lhes permitida uma vida que o resto da sociedade leva. A idade não deve ser um obstáculo, muito menos a doença. Muitas pessoas agarram-se às doenças que têm à procura de compaixão ou invés de activamente procurarem a interacção e o apoio.

Coube ao Director do Departamento dos Direitos Sociais da CML encerrar o encontro, destacando o facto do Fórum ter esgotado as inscrições e com o desejo que os projectos apresentados possam passar a fazer parte da norma e não apenas serem ideias excepcionais.

 

(Publicado originalmente no Jornal APOIAR 112)

 

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