{"id":262,"date":"2011-08-30T15:46:52","date_gmt":"2011-08-30T15:46:52","guid":{"rendered":"http:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/?p=262"},"modified":"2017-03-01T15:51:06","modified_gmt":"2017-03-01T15:51:06","slug":"oreencontrocomotrauma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/2011\/08\/30\/oreencontrocomotrauma\/","title":{"rendered":"O reencontro com o trauma"},"content":{"rendered":"<h3>Por: Nuno Duarte(*):<\/h3>\n<p>Acompanhando a presen\u00e7a em cartaz do filme \u201cValsa com Bashir\u201d, a Atalanta Filmes, em parceria com o Le Monde Diplomatique, organizou tr\u00eas debates que tiveram lugar no cinema King durante o m\u00eas de Janeiro, sempre pelas 23h00, ap\u00f3s a sess\u00e3o das 21h30. Destacamos nesta edi\u00e7\u00e3o em particular a sess\u00e3o decorrida no passado 23 de Janeiro intitulada \u201cO trabalho de mem\u00f3ria e os traumatismos do p\u00f3s-guerra\u201d. Este debate p\u00f4de contar com a presen\u00e7a de Afonso Albuquerque (M\u00e9dico Psiquiatra), Armindo Roque (Presidente da APOIAR) e Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3 (Historiador e jornalista da RTP).<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright\" src=\"http:\/\/cineclubesantarem.files.wordpress.com\/2009\/04\/cartaz_bashir_alt4.jpg\" width=\"313\" height=\"443\" \/><\/p>\n<p>Come\u00e7ou por intervir Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3 com uma reflex\u00e3o interessante sobre a presen\u00e7a da mem\u00f3ria colectiva suscitando interesse na sua abordagem ao conceito de trauma colectivo e referindo-se \u00e0 necessidade dos povos recordarem o seu passado para terem poderem construir um futuro.<\/p>\n<p>Armindo Roque optou por uma interven\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise sobre o car\u00e1cter discriminat\u00f3rio que o papel de um doente na sociedade sempre comportou, em particular, o de deficiente. Acabou a partilhar a sua experi\u00eancia pessoal, como ex-combatente com stress de guerra, e a sua vis\u00e3o emocionada suscitou aplausos por parte do p\u00fablico visivelmente emp\u00e1tico com a dor manifestada.<\/p>\n<p>Finalmente, Afonso de Albuquerque partiu da experi\u00eancia do realizador do filme para clarificar alguns conceitos relacionados com a Perturba\u00e7\u00e3o P\u00f3s-Stress Traum\u00e1tico de Guerra, nomeadamente o conceito de trauma, amn\u00e9sia e psicoterapia de exposi\u00e7\u00e3o \u2013 que s\u00e3o algumas das ideias fundamentais para se compreender o Stress de Guerra.<\/p>\n<p>Depois das tr\u00eas reflex\u00f5es conclu\u00eddas abriu-se o espa\u00e7o \u00e0s d\u00favidas, inquieta\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es que a audi\u00eancia aproveitou para expressar com emo\u00e7\u00e3o. Assistiu-se a uma troca de ideias entre os diversos intervenientes que, evidentemente, nos deixou confiantes sobre a abertura que a sociedade come\u00e7a a dar \u00e0 tem\u00e1tica do Stress de Guerra, mas com reservas relativamente \u00e0 forma como se aborda um assunto ainda delicado e com uma aten\u00e7\u00e3o especial aquilo a que chamamos \u201cfalar sobre\u2026\u201d<\/p>\n<p>Concluiu-se que \u201cfalar sobre\u2026\u201d \u00e9 importante, mas \u00e9 necess\u00e1rio perceber se conseguiremos criar um conhecimento maior e mais aprofundado da realidade vivida pelos ex-combatentes ou se nos manteremos com uma mem\u00f3ria colectiva superficial e distante dos traumas psicol\u00f3gicos provocados pela guerra.<\/p>\n<p>A VALSA COM BASHIR<\/p>\n<p>A \u201cValsa com Bashir\u201d de Ari Folman \u00e9 um document\u00e1rio animado sobre o reencontro de um homem com a sua mem\u00f3ria. Esse homem \u00e9 o pr\u00f3prio realizador que esteve presente na invas\u00e3o israelita do L\u00edbano, em 1982, e, atrav\u00e9s do filme, aborda o massacre de palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, realizados por crist\u00e3os falangistas, com a ajuda de soldados israelitas (que, apesar de n\u00e3o terem estado nos campos, ao iluminarem a ofensiva dos crist\u00e3os falangistas durante a noite facilitaram a sua ac\u00e7\u00e3o violenta). Tivemos a oportunidade de ver na edi\u00e7\u00e3o anterior do jornal uma breve refer\u00eancia \u00e0 hist\u00f3ria do filme e ao enquadramento pol\u00edtico do mesmo. Assim sendo, como psic\u00f3logo cl\u00ednico, penso ser de maior interesse, nestas linhas, uma reflex\u00e3o sobre o filme reportando aos conceitos de mem\u00f3ria traum\u00e1tica e amn\u00e9sia psicog\u00e9nica.<\/p>\n<p>A inquieta\u00e7\u00e3o no visionamento do filme surge logo nas primeiras imagens. Tudo come\u00e7a com sonhos perturbadores. Um pesadelo. 26 c\u00e3es raivosos que ladram e uivam a correr pelas ruas s\u00f3 parando junto \u00e0 janela de um homem que os fita do alto da sua casa. Este homem, um antigo camarada de armas de Ari Folman, relata-lhe este pesadelo enquanto conversam num bar. 26 c\u00e3es. Tantos quantos o antigo soldado, por n\u00e3o conseguir matar pessoas, teve de matar nas opera\u00e7\u00f5es efectuadas pelo ex\u00e9rcito israelita. A sua miss\u00e3o era matar os c\u00e3es que, nas aldeias palestinianas onde o ex\u00e9rcito israelita chegava de noite, come\u00e7avam a ladrar alertando a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao ouvir o relato do seu amigo Ari Folman percebe que n\u00e3o tem mem\u00f3rias da guerra e inicia a sua viagem ao passado. Ao seu passado. A representa\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria est\u00e1 muito bem conseguida atrav\u00e9s da anima\u00e7\u00e3o, pois imprime ao filme um car\u00e1cter eminentemente on\u00edrico e aleg\u00f3rico onde as cores e as imagens traduzem emo\u00e7\u00f5es t\u00e3o variadas como o horror, medo e uma esp\u00e9cie de surrealismo colectivo e individual que nos reporta a um limiar nebuloso entre a realidade objectiva dos factos e a realidade subjectiva da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 na explora\u00e7\u00e3o da realidade subjectiva da mem\u00f3ria que o filme nos cativa e agita. Sabemos que um trauma surge de uma experi\u00eancia de vida que vai para al\u00e9m do que o ser humano est\u00e1 preparado ou tem capacidade para lidar. Para que constitua trauma a viv\u00eancia desta experi\u00eancia \u00e9 vivida com horror intenso, medo, amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria vida ou \u00e0 vida de algu\u00e9m pr\u00f3ximo e querido (no caso da guerra, os camaradas t\u00eam este lugar especial). Uma das formas que o ser humano possui para lidar com o trauma \u00e9 arquivar o acontecimento, em bruto, nos al\u00e7ap\u00f5es da mem\u00f3ria. Ele vive, a partir da\u00ed, na expectativa de que o seu c\u00e9rebro nunca se lembre de ir buscar a informa\u00e7\u00e3o, sobre tal viv\u00eancia t\u00e3o dolorosa, que foi bloqueada. A esta estrat\u00e9gia de bloqueio involunt\u00e1rio da mem\u00f3ria traum\u00e1tica damos o nome de amn\u00e9sia psicog\u00e9nica.<\/p>\n<p>RECUPERAR A MEM\u00d3RIA PERDIDA<\/p>\n<p>No caso do filme, a amn\u00e9sia psicog\u00e9nica representa um mecanismo de defesa utilizado pelo jovem soldado Ari Folman para conseguir lidar com a experi\u00eancia que vivenciou. Assim, \u00e9 como se n\u00e3o enfrentasse a realidade, ou como se n\u00e3o estivesse estado l\u00e1, pois o c\u00e9rebro n\u00e3o consegue processar aquelas emo\u00e7\u00f5es que est\u00e3o para al\u00e9m da realidade aceit\u00e1vel. Ao assistirmos ao desdobrar das mem\u00f3rias traum\u00e1ticas de Ari Folman vamos compreendendo a necessidade do realizador em recuperar as mem\u00f3rias perdidas. A ang\u00fastia de ter uma parte de si t\u00e3o importante que n\u00e3o \u00e9 recordada \u00e9 o motor do processo de descoberta.<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o, que come\u00e7am a fluir peda\u00e7os de mem\u00f3rias fragmentadas entre imagens, conversas e sonhos.<\/p>\n<p>Uma das mais poderosas imagens do filme retrata um grupo de tr\u00eas jovens rapazes nus, tristes e de olhar ausente, a sa\u00edrem da \u00e1gua rumo \u00e0 cidade de Beirute (retratada por pr\u00e9dios devastados e vazios, destro\u00e7os, palmeiras a ondular e foguetes a iluminar os c\u00e9us de laranja). \u00c9 com esta imagem que a viagem interior de Ari Folman se inicia e atrav\u00e9s dela n\u00f3s, espectadores ainda confusos, vamos percebendo o sentido da narrativa pessoal que se come\u00e7a a desvendar.<\/p>\n<p>Tal como na terapia que utilizamos para o tratamento do PTSD de Guerra, o realizador procura est\u00edmulos e hist\u00f3rias de outros camaradas que o ajudem a compreender o seu sonho e a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se lembra de tais acontecimentos de guerra. Inicia-se ent\u00e3o o processamento da mem\u00f3ria que est\u00e1 em bruto (a mem\u00f3ria traum\u00e1tica) em conjunto com o processamento das emo\u00e7\u00f5es que est\u00e3o associadas a essa mem\u00f3ria (medo, horror, tristeza) \u2013 \u00e9 este voltar atr\u00e1s no tempo, atrav\u00e9s das diversas conversas que assistimos durante o filme, que permite ao realizador explorar diversos aspectos da mem\u00f3ria e dar-lhes um sentido que permita integr\u00e1-los na sua narrativa de vida.<\/p>\n<p>Este processo de explora\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria \u00e9 como termos um puzzle incompleto em cima de uma mesa que queremos terminar (as pe\u00e7as do puzzle s\u00e3o as mem\u00f3rias da sua vida, interligadas, mas falta algo para dar sentido ao puzzle, para se perceber o quadro completo). Cada pe\u00e7a ausente do puzzle \u00e9 revestida de um significado pr\u00f3prio e traz consigo emo\u00e7\u00f5es dolorosas. No entanto, para conseguir completar o puzzle \u00e9 necess\u00e1rio olhar para as pe\u00e7as que estavam de fora (mem\u00f3rias traum\u00e1ticas) e encaix\u00e1-las no s\u00edtio certo. O acto de encaixar as pe\u00e7as, ou seja, processar as mem\u00f3rias traum\u00e1ticas ligando-as \u00e0s restantes mem\u00f3rias da nossa exist\u00eancia s\u00f3 se torna poss\u00edvel atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o a est\u00edmulos ou imagens que ajudem a recordar o momento traum\u00e1tico, assim como \u00e0s emo\u00e7\u00f5es que o acompanham.<\/p>\n<p>REENCONTRO COM A DOR<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia e a beleza deste filme resumem-se ao reencontro de um homem com a dor do que viveu, percurso indissoci\u00e1vel de um reenquadramento consigo mesmo enquanto pessoa.<\/p>\n<p>Por muito dif\u00edcil que seja este processo, a vontade de compreender uma parte de si move Ari Folman durante todo o filme. E consegue-o. Conseguindo ainda transportar-nos para essa fatalidade que \u00e9 a guerra.<\/p>\n<p>Uma mensagem recorrente ao longo do filme reside num retrato de jovens perdidos, confusos e assustados rumando alucinados at\u00e9 Beirute. Esta mensagem \u00e9 pautada por diversas cenas tocantes da qual destaco a entrada pelo interior do L\u00edbano feita por jovens soldados israelitas, assustados, dentro de um blindado que disparam ininterruptamente em todas as direc\u00e7\u00f5es contra um inimigo que eles n\u00e3o conseguem ver: o medo.<\/p>\n<p>Uma segunda mensagem absolutamente arrepiante assume toda a sua intensidade nas \u00faltimas cenas do filme, com a consci\u00eancia da dimens\u00e3o do massacre e da permissividade com que este aconteceu. O que sentimos \u00e9 a completa desola\u00e7\u00e3o quando nos \u00e9 revelada a cat\u00e1strofe e dor que um ser humano consegue infligir noutro.<\/p>\n<p>Neste filme, o horror absoluto mostra as suas diferentes faces.<\/p>\n<p>E n\u00f3s ali permanecemos, espectadores presos \u00e0 cadeira da sala de cinema, em sil\u00eancio, conversando com o que ainda resta de humanidade dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>*(Psic\u00f3logo Cl\u00ednico \/ Psicoterapeuta<\/strong><br \/>\n<strong> Cognitivo-Comportamental<\/strong><\/p>\n<p>Publicado originalmente no n\u00ba 56 de Janeiro e Fevereiro de 2009 do Jornal APOIAR<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Nuno Duarte(*): Acompanhando a presen\u00e7a em cartaz do filme \u201cValsa com Bashir\u201d, a Atalanta Filmes, em parceria com o Le Monde Diplomatique, organizou tr\u00eas debates que tiveram lugar no cinema King durante o m\u00eas de Janeiro, sempre pelas 23h00, ap\u00f3s a sess\u00e3o das 21h30. 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