{"id":386,"date":"2011-09-07T14:08:30","date_gmt":"2011-09-07T14:08:30","guid":{"rendered":"http:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/?p=386"},"modified":"2017-03-13T14:46:03","modified_gmt":"2017-03-13T14:46:03","slug":"barreiras-culturais-a-integracao-das-pessoas-deficientes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/2011\/09\/07\/barreiras-culturais-a-integracao-das-pessoas-deficientes\/","title":{"rendered":"Barreiras Culturais \u00e0 Integra\u00e7\u00e3o das Pessoas Deficientes"},"content":{"rendered":"<h4>Por: Armindo Roque (*)<\/h4>\n<p><em>(Alocu\u00e7\u00e3o apresentada no semin\u00e1rio &#8220;A Psicologia Militar no contexto das Opera\u00e7\u00f5es Militares: A Guerra Colonial e as For\u00e7as Nacionais Destacadas&#8221;, organizado pelo Centro de Psicologia Aplicada do Ex\u00e9rcito na Academia Militar na Amadora, dia 19 de Outubro de 2010)<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u2026ter\u00e3o de ir mendigar o p\u00e3o, que a p\u00e1tria tem obriga\u00e7\u00e3o de lhes dar, havendo eles ganhado o direito a receb\u00ea-lo com o seu sangue, e com os perigos e fadigas da guerra, que s\u00f3 sabem avaliar aqueles que o t\u00eam passado.\u201d Alexandre Herculano in \u201cO Panorama\u201d<\/p><\/blockquote>\n<div><i><br \/>\n<\/i><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_a1h0se37u_8\/TPip1Ge54oI\/AAAAAAAAADA\/AQK62oEV4WY\/s320\/Understanding.jpg\" border=\"0\" \/>Desde a Antiguidade at\u00e9 \u00e0 Idade M\u00e9dia havia para com o deficiente e especificamente com o leproso atitude de repulsa e rejei\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 particularmente acentuada no caso da lepra pelo estigma lan\u00e7ado no &#8220;Velho Testamento&#8221; e tamb\u00e9m pelas caracter\u00edsticas da pr\u00f3pria doen\u00e7a. Podem-se, esporadicamente, deparar com atitudes mais piedosas resultantes do exemplo de Cristo<\/p>\n<div>\u00a0para com os pobres, os doentes e os oprimidos que tiveram sobre o homem medieval o efeito de atenuar um pouco o desamparo em que os doentes viviam. No entanto, este exemplo n\u00e3o foi s\u00f3 por si suficientemente forte para que o deficiente fosse considerado um elemento igual, um irm\u00e3o, antes pelo contr\u00e1rio, ele foi sistematicamente marginalizado de forma atroz e muitas vezes desumana, remetido para o submundo da mis\u00e9ria mais profunda, onde se confunde com ladr\u00f5es, vadios, prostitutas, num ambiente de corrup\u00e7\u00e3o moral, em que a ociosidade \u00e9 factor determinante imediato.<\/p>\n<p>A partir do s\u00e9c. XV os deficientes s\u00e3o os \u201cdescendentes\u201d, pode-se dizer assim, dos leprosos da \u00e9poca mosaica e da Idade M\u00e9dia, que se tornaram muito poucos a partir dos fins do s\u00e9c. XVI. Segundo Focault: \u201cA lepra desaparecida, ou quase, das mem\u00f3rias, as estruturas permanecer\u00e3o. Nos mesmos lugares muitas vezes, os modos de exclus\u00e3o voltar\u00e3o, estranhamente parecidos dois ou tr\u00eas s\u00e9culos mais tarde. Pobres, vagabundos, correcion\u00e1rios, doentes mentais, tomar\u00e3o o lugar abandonado pela lepra, e n\u00f3s veremos qual a liberta\u00e7\u00e3o que foi recebida com esta exclus\u00e3o por eles mesmos e por aqueles que os excluem; com um sentido novo, e numa cultura muito diferente, as formas subsistir\u00e3o, essencialmente na forma duma separa\u00e7\u00e3o rigorosa que \u00e9 a exclus\u00e3o social, mas reintegra\u00e7\u00e3o espiritual.\u201d Esta passagem de Focault \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o genial da mudan\u00e7a que se operou nos s\u00e9c. XV e XVI.<\/p>\n<p>Para que esta modifica\u00e7\u00e3o de mentalidades se processe muito contribuiu o ideal Humanista. Para More, na sua \u201cUtopia\u201d, n\u00e3o existem mendigos porque as causas sociais da sua exist\u00eancia tinham desaparecido e, portanto, ningu\u00e9m tinha necessidade de mendigar.<\/p>\n<p>Os ideais renascentistas come\u00e7am muito cedo a penetrar em Portugal, na primeira parte do reinado de D. Jo\u00e3o III e s\u00e3o sobretudo de influ\u00eancia erasmiana: defendiam a justi\u00e7a, o apoio \u00e0s crian\u00e7as, o amor pelos pobres e a protec\u00e7\u00e3o na doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Se bem que o Renascimento n\u00e3o tenha operado uma ruptura epistemol\u00f3gica com a escol\u00e1stica, se bem que se tenha mantido uma posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua entre o velho e o novo, sem criar propriamente uma nova filosofia, operou pelo menos uma profunda transforma\u00e7\u00e3o no campo da \u00e9tica.<\/p>\n<p>No s\u00e9c. XIX assistem-se a alguns avan\u00e7os sobretudo na assist\u00eancia social. No entanto, nos grandes asilos e hospitais onde os deficientes, quer f\u00edsicos, quer mentais, eram encaixotados, estes passam a ser organizadamente marginalizados. O grave problema, em Portugal, foi que com o fecho abrupto das Miseric\u00f3rdias que come\u00e7ou com o Liberalismo (1820) e continuou com a Rep\u00fablica (1910) os deficientes ficaram completamente desenraizados e afastados da fam\u00edlia, dos vizinhos e do seu meio ambiente. O anti-clericalismo cego saiu-nos muito caro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Grande Guerra come\u00e7am a ser esbo\u00e7ados os primeiros e t\u00e9nues passos de exig\u00eancia de total participa\u00e7\u00e3o e igualdade como cidad\u00e3os de pleno direito Durante a 2\u00aa Guerra Mundial a taxa de recusas por raz\u00f5es psicol\u00f3gicas foi sete vezes maior, as \u201cneuroses\u201d de guerra passaram a ser um grave problema social. A partir dos anos sessenta come\u00e7am a surgir enormes manifesta\u00e7\u00f5es dos veteranos do Vietname.<\/p>\n<p>Em Portugal, por\u00e9m, esse movimento s\u00f3 come\u00e7a ap\u00f3s o 25 de Abril, com as aguerridas e espectaculares manifesta\u00e7\u00f5es de rua, ocupa\u00e7\u00f5es de pontes, da Emissora Nacional e inclusive um sequestro do Governo e da Assembleia da Rep\u00fablica os deficientes das for\u00e7as armadas conseguem em Setembro de 1975 ver reconhecidos os seus direitos como cidad\u00e3os de pleno direito na sociedade. S\u00f3 com a passagem do mil\u00e9nio os deficientes com \u201cStress de Guerra\u201d (PTSD) t\u00eam uma lei que os contempla, a Lei 46\/99. Como estas lutas tiveram um grande impacto medi\u00e1tico, nomeadamente porque em 1975 houve a ocupa\u00e7\u00e3o dos microfones da Emissora Nacional, as mentalidades em Portugal mudam: a mendicidade \u00e9 banida e exige-se o direito \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o profissional. O termo inv\u00e1lido deixa de existir.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria<\/p>\n<p>Existem muito poucas refer\u00eancias aos deficientes sobretudo nas obras dos historiadores mais conhecidos que praticamente os ignoram. No \u201cDicion\u00e1rio da Hist\u00f3ria de Portugal\u201d, dirigido por Joel Serr\u00e3o, apenas se trata deste assunto na entrada \u201cmendicidade\u201d. A Hist\u00f3ria de uma maneira geral prima pela aus\u00eancia, o deficiente n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, quem n\u00e3o existe na Hist\u00f3ria n\u00e3o existe na sociedade e esta \u00e9 uma das mais poderosas barreiras \u00e0 integra\u00e7\u00e3o dos deficientes.<\/p>\n<p>Cinema<\/p>\n<p>O cinema est\u00e1 cheio de personagens em que os deficientes, sobretudo os mentais, s\u00e3o utilizados como os s\u00edmbolos do mal. Imperceptivelmente, ao vermos um filme, ao lermos um romance ou um poema, ao assistirmos a uma pe\u00e7a de teatro somos bombardeados por esses s\u00edmbolos mal\u00e9ficos. Toda uma mentalidade \u00e9 subtilmente formada ou deformada, levando-nos a tomar atitudes que n\u00e3o compreendemos, porque n\u00e3o entendemos a raz\u00e3o pela qual tais pensamentos nos surgem \u00e0 flor da pele e nos provocam arrepios perante algo de diferente do que \u00e9 considerado normal. Ou talvez sim! Afinal a est\u00f3ria do \u201cPirata da Perna de Pau do Olho de Vidro e da cara de Mau\u201d est\u00e1 a\u00ed bem presente no nosso subconsciente das est\u00f3rias que t\u00e3o carinhosamente nos s\u00e3o contadas para adormecer e repetidas at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o nas telas do cinema e nos monitores de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a guerra do Vietname e mais recentemente com as do Iraque e do Afeganist\u00e3o, com os ataques do 11 de Setembro nos EUA feito ao centro do poder militar, Pent\u00e1gono e centro do poder econ\u00f3mico, Twin Towers e ao facto de as situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas serem exibidas quase em directo pela televis\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o ocidental viu que a guerra afinal estava logo ali ao virar da esquina. Isto teve um impacto brutal para a problem\u00e1tica stress p\u00f3s traum\u00e1tico em geral. Nada seria como dantes!<\/p>\n<p>Em Portugal a exibi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie televisiva de Joaquim Furtado \u201cGuerra\u201d pelo menos os primeiros dez epis\u00f3dios foram uma verdadeira catarse que se fez sobre a Guerra Colonial. Ali vi coisas que s\u00f3 julguei ser poss\u00edvel nas sess\u00f5es de terapia de grupo.<\/p>\n<p>A \u201cValsa com Bashir\u201d, de Ari Folman, foi um aut\u00eantico murro no est\u00f4mago que teve repercuss\u00f5es a n\u00edvel mundial e foi realizado por um intelectual stressado de guerra que avan\u00e7a mais longe na leitura do trauma: \u201ccomo um traumatismo colectivo para a na\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 muita coisa a florir debaixo do pantanal, nunca como agora a intelig\u00eancia foi t\u00e3o importante em detrimento das faculdades f\u00edsicas: afinal na pr\u00f3pria guerra os her\u00f3is s\u00e3o os que sabem manejar armas ultra sofisticadas comandadas vocalmente ou por um simples olhar. Ouve mudan\u00e7as no mundo castrense: j\u00e1 n\u00e3o nos consideram uns cobardes! A pr\u00f3pria FMAC para n\u00e3o ficar completamente isolada dos combatentes tem vindo a ser empurrada no sentido de propor legisla\u00e7\u00e3o que, ou vai a bem ou vai a mal.<\/p>\n<p>Na APOIAR, a nossa maior vit\u00f3ria foi o facto de termos demonstrado que os deficientes mentais podem ser agentes da sua pr\u00f3pria reintegra\u00e7\u00e3o que podem discutir e defender os seus interesses pela sua pr\u00f3pria boca e pensar pela sua cabe\u00e7a. Isto \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o das teses que defendem que o que importa n\u00e3o s\u00e3o as incapacidades, pois todo o ser humano tem incapacidades, a come\u00e7ar pela incapacidade de voar, de viver sem \u00e1gua, comida ou oxig\u00e9nio. O importante \u00e9 desenvolver as capacidades restantes. Mas estas capacidades restantes situam-se, nos momentos dram\u00e1ticos em que vivemos, ao n\u00edvel das necessidades mais b\u00e1sicas.<br \/>\nApoiar solidariamente como quem ajuda um irm\u00e3o, n\u00e3o como quem ajuda um desgra\u00e7ado. E esse que \u00e9 ajudado tem que ser estimulado ele pr\u00f3prio a entrar nesta rede de ajuda m\u00fatua e n\u00e3o ser apenas um sujeito passivo como na fila da sopa do Sid\u00f3nio: Quem os apoia? Quem os ajuda?<\/p>\n<p>O problema tamb\u00e9m \u00e9 nosso! N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do Governo! Os problemas do paternalismo, da bata branca, da burocracia, do pragmatismo s\u00e3o muito graves: as m\u00e1quinas pesadas e opressivas t\u00eam de acabar, h\u00e1 muito dinheiro gasto com pouca efic\u00e1cia, pouca sinergia.<\/p>\n<p>No que concerne aos sem abrigo, se compararmos Lisboa com o Porto, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a. No Porto, ONG que poucos apoios recebem do Estado ou das autarquias, como a AMI, a Caritas e a CAIS, tiraram da rua e reintegram num ano dois mil sem abrigo enquanto em Lisboa pouco se fez.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso terminar a minha interven\u00e7\u00e3o sem uma palavra de solidariedade para com os que passam fome. 600 mil pessoas com mais de 65 anos t\u00eam car\u00eancias alimentares e com elas os inevit\u00e1veis problemas f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos. Em 2008, 53% dos idosos que precisavam de suplementos alimentares tinham acesso a eles, o n\u00famero caiu para 27% o ano passado, o que ir\u00e1 acontecer agora com as recentes medidas tomadas pelo governo no que concerne aos medicamentos que eram comparticipados a 100%? Vai ser uma calamidade, uma desgra\u00e7a, centenas de milhares de zombies a vaguear pelas ruas das nossas cidades, pelos atalhos dos campos, pelos esgotos mais nauseabundos da vida, de cora\u00e7\u00e3o e alma dilacerados entregues ao mais profundo desespero na indignidade da sua reforma vencida, vendida, vilipendiada como n\u00e3o poder\u00edamos achar poss\u00edvel acontecer num pa\u00eds europeu em pleno s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>*(Historiador)<br \/>\nPublicado originalmente no <a class=\"disabled\" href=\"https:\/\/sites.google.com\/site\/apoiarstress\/system\/errors\/NodeNotFound?suri=wuid:gx:5c5ddf1cef4ea6a5\">n\u00ba 66 de Setembro e Outubro<\/a> do Jornal APOIAR<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Armindo Roque (*) (Alocu\u00e7\u00e3o apresentada no semin\u00e1rio &#8220;A Psicologia Militar no contexto das Opera\u00e7\u00f5es Militares: A Guerra Colonial e as For\u00e7as Nacionais Destacadas&#8221;, organizado pelo Centro de Psicologia Aplicada do Ex\u00e9rcito na Academia Militar na Amadora, dia 19 de Outubro de 2010) \u201c\u2026ter\u00e3o de ir mendigar o p\u00e3o, que a p\u00e1tria tem obriga\u00e7\u00e3o de <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/2011\/09\/07\/barreiras-culturais-a-integracao-das-pessoas-deficientes\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[28,29],"class_list":["post-386","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-cientificos","tag-deficiencia","tag-integracao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.8 - 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