{"id":429,"date":"2010-09-24T16:47:13","date_gmt":"2010-09-24T16:47:13","guid":{"rendered":"http:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/?p=429"},"modified":"2017-03-13T16:57:28","modified_gmt":"2017-03-13T16:57:28","slug":"entrevista-com-armindo-roque-seis-anos-de-presidencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apoiar-stressdeguerra.com\/pt\/2010\/09\/24\/entrevista-com-armindo-roque-seis-anos-de-presidencia\/","title":{"rendered":"Entrevista com Armindo Roque: Seis anos de presid\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h4>Entrevista por: Humberto Silva<\/h4>\n<p><strong>Prestes a terminar o seu terceiro mandato, o segundo e \u00faltimo enquanto Presidente da Direc\u00e7\u00e3o da APOIAR, Armindo Roque faz ao jornal \u201cAPOIAR\u201d um balan\u00e7o dos \u00faltimos doze anos desta institui\u00e7\u00e3o de apoio aos ex-combatentes v\u00edtimas de stress de guerra. Combatente na Guin\u00e9 e dirigente associativo desde o 25 de Abril, eis o testemunho e balan\u00e7o de uma fase que cumpre at\u00e9 ao fim dentro do que \u00e9 estatutariamente permitido.<\/strong><\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright\" src=\"https:\/\/sites.google.com\/site\/apoiarstress\/_\/rsrc\/1429699393082\/noticias-e-eventos-1\/entrevistacomarmindoroqueseisanosdepresidencia\/DSC01540.JPG?height=189&amp;width=200\" width=\"246\" height=\"233\" \/><\/strong><\/p>\n<div>Armindo Matos Roque, nascido em Angola, em 1950, passou toda a sua inf\u00e2ncia nas matas africanas. O pai, m\u00e9dico, era colocado, no seu in\u00edcio de carreira, como Delegado de Sa\u00fade, em pequenas povoa\u00e7\u00f5es sede de concelho. Desta forma, esteve tamb\u00e9m em S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e Mo\u00e7ambique. Por fim, acabou por ir fazer a Guerra \u00e0 Guin\u00e9 em 1972\/74, em Jolmete &#8211; Rio Cacheu e em Cadique na Mata do Catanhez.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 licenciado em Hist\u00f3ria pela Faculdade de Letras de Lisboa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>V\u00edtima de ac\u00e7\u00e3o subversiva<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Enquanto combatente fez a recruta em Santar\u00e9m em Julho de 1971, onde tirou o curso de Sargentos milicianos. Poucos dias depois de assentar pra\u00e7a, a poucos metros de onde se encontrava a fazer instru\u00e7\u00e3o, explodiu o paiol desse quartel que tinha sido armadilhado pela oposi\u00e7\u00e3o. Foi a maior ac\u00e7\u00e3o subversiva feita em Portugal continental. Logo a\u00ed come\u00e7ou a sua guerra. Transitou depois para Sacav\u00e9m onde tirou o curso de Mec\u00e2nico Auto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Combatente na Guin\u00e9<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em Setembro de 1972 seguiu para a Guin\u00e9, tendo sido colocado em Jolmete, um local onde terminava a picada, um cu de judas, como diria Lobo Antunes, junto ao rio Cacheu. No in\u00edcio de 1973 foi transferido de companhia. Essa companhia foi deslocada para desocupar a Mata do Catanhez e foi abrir um quartel em Cadique, cujo objectivo era rasgar uma estrada para atravessar essa mata sagrada, libertada pelo PAIGC, em 1963. A\u00ed dormia-se em tendas, no meio da lama, em valas cavadas pelas pr\u00f3prias m\u00e3os a p\u00e1 e pica, sem arame farpado, sem ilumina\u00e7\u00e3o, sujeitos a ataques de toda a ordem inclusive de foguet\u00f5es. De tal forma que Armindo Roque por vezes preferia sair para o mato, onde se sentia mais seguro do que no quartel. De volta para \u00e0 sua companhia original estacionou tr\u00eas dias na CCS, no Pelundo, a aguardar transporte. Logo no segundo dia este quartel foi violentamente atacado. Chegado ao seu quartel, ainda n\u00e3o curado dos ferimentos do ataque anterior, este \u00e9 tamb\u00e9m violentamente flagelado com grande n\u00famero de mortos incluindo mulheres e crian\u00e7as. Apesar da sua especialidade de mec\u00e2nico auto acabou por ser um dos militares do seu batalh\u00e3o que mais vezes esteve em combate e com maior intensidade de fogo. Esta comiss\u00e3o terminou, em Maio de 1974, na segunda vinda de f\u00e9rias a Portugal, j\u00e1 depois do 25 de Abril, ao sofrer um acidente de autom\u00f3vel, estando oito anos hospitalizado no Hospital Militar Anexo, ficando com defi\u00eancia motora para o resto da vida. Foi qualificado DFA por stress de guerra, que lhe foi detectado com trinta e cinco anos de idade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Hospital Militar<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cDe facto a minha luta come\u00e7ou logo no Hospital Militar Anexo, em 1974, onde reivindic\u00e1mos que n\u00e3o fosse nem mais um soldado para as col\u00f3nias, toda a gente votou a favor. Se havia estressados de guerra era a\u00ed. Cegos, amputados, doentes de toda a esp\u00e9cie acabados de chegar da frente de combate: a guerra era pior que o inferno. Mas foi talvez a\u00ed que fizemos a nossa primeira grande terapia de grupo sem sabermos que o est\u00e1vamos a fazer: fal\u00e1vamos da guerra com grande descontrac\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s tantas da manh\u00e3 e at\u00e9 goz\u00e1vamos com as defici\u00eancias uns dos outros: era a juventude.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi no hospital militar onde foram criadas comiss\u00f5es de doentes que desencadeamos a primeira manifesta\u00e7\u00e3o de deficientes: do Anexo, na Artilharia 1, para o Rossio, a fim de exigirmos podermos sair diariamente do Hospital e n\u00e3o apenas \u00e0s quartas-feiras como antes do 25 de Abril.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>S\u00f3cio fundador da ADFA<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi um dos s\u00f3cios fundadores da Associa\u00e7\u00e3o dos Deficientes das For\u00e7as Armadas (ADFA), esteve na ocupa\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio da Independ\u00eancia onde dormiu uma s\u00e9rie de noites para o Copcon n\u00e3o ir l\u00e1 desocupar aquilo pois queriam ali fazer uma messe de oficiais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Participou activamente nas reuni\u00f5es da ter\u00e7a\u2013feira para a discuss\u00e3o do caderno reivindicativo que foi apresentado ao Presidente da Rep\u00fablica e que levaria \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Decreto Lei 43\/76.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Luta \u00a0Setembro 75<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A 20 de Setembro de 1975 a ADFA fez uma manifesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m para apresentar as suas reivindica\u00e7\u00f5es ao Presidente da Rep\u00fablica, Costa Gomes.<\/div>\n<div><\/div>\n<blockquote>\n<div>Este n\u00e3o nos recebeu e os membros da Direc\u00e7\u00e3o e da Assembleia Geral, vieram com o Conselheiro da Revolu\u00e7\u00e3o, Marques J\u00fanior, dizer-nos que o nosso problema iria ser resolvido e que pod\u00edamos desmobilizar.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nessa altura eu peguei num megafone e disse que a Direc\u00e7\u00e3o estava a trair-nos e lancei a palavra de ordem \u2018ningu\u00e9m arreda p\u00e9\u2019: tive o apoio de todos. De imediato form\u00e1mos uma Comiss\u00e3o de Luta, a primeira em Portugal, e assumimos o poder em nome da Direc\u00e7\u00e3o. Redigimos um comunicado que foi lido nos microfones do \u00a0R\u00e1dio Clube a convocar os s\u00f3cios e o povo para a luta. A ades\u00e3o foi extraordin\u00e1ria De imediato encerr\u00e1mos a marginal em frente ao Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m assim como toda a circula\u00e7\u00e3o dos el\u00e9ctricos em frente ao mesmo. A Pol\u00edcia Militar teve ordens para nos desocupar, em vez disso vieram dizer-me que se colocavam \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o. Pedi-lhes para controlarem uma barricada que entretanto tinha-mos erguido na marginal, para evitar desacatos.<\/div>\n<div>A Emissora Nacional, no Quelhas, foi ocupada \u00e0 noite e os seus microfones ficaram por nossa conta. A\u00ed mont\u00e1mos o nosso quartel general de onde cerc\u00e1mos o Pal\u00e1cio de S. Bento.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No dia seguinte ocup\u00e1mos as portagens da ponte 25 de Abril passando os automobilistas sem pagar portagem. De igual forma se procedeu nas portagens da auto-estrada do norte e na ponte de Vila Franca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esta luta que durou quase um m\u00eas e obrigou o Governo a assinar o decreto lei 43\/76, que reconheceu os direitos \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o e \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o social dos deficientes das For\u00e7as Armadas (DFA) que \u00e9 considerado, ainda hoje, a b\u00edblia dos DFA.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesta luta os deficientes portugueses puseram-se de p\u00e9 e nunca mais ningu\u00e9m os viu mendigar.<\/div>\n<\/blockquote>\n<div><\/div>\n<div>Foi eleito v\u00e1rias vezes para membro dos \u00f3rg\u00e3os sociais centrais da ADFA de cujo jornal, o \u201cELO\u201d, foi jornalista durante muitos anos. Nesta organiza\u00e7\u00e3o desempenhou tamb\u00e9m actividades no \u00e2mbito da anima\u00e7\u00e3o cultural.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Barreiras invis\u00edveis da integra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tem investigado a problem\u00e1tica das barreiras invis\u00edveis da integra\u00e7\u00e3o da pessoa deficiente desde 1984 tendo editado diversos artigos sobre este assunto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em 1994 e 1995 aprofundou este tema integrado numa equipa constitu\u00edda por quatro investigadores das \u00e1reas de hist\u00f3ria, lingu\u00edstica, direito e sociologia num trabalho de investiga\u00e7\u00e3o realizado na ADFA cujas conclus\u00f5es foram publicadas em \u201cAs Barreiras Invis\u00edveis da Integra\u00e7\u00e3o\u201d e difundido na RTP em v\u00e1rios programas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Nas lutas da APOIAR de 1999 a 2001<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi Secret\u00e1rio da Direc\u00e7\u00e3o Nacional da APOIAR durante os anos de 1999 a 2001. Participou de forma muito activa nas reuni\u00f5es havidas na Assembleia da Rep\u00fablica, assim como na direc\u00e7\u00e3o das lutas de rua que foram organizadas com o objectivo de aprovar a lei 46\/99 que reconhece como Deficientes das For\u00e7as Armadas as pessoas com \u201cstress de guerra e que criou a Rede Nacional de Apoio o que levou \u00e0 assinatura em Janeiro de 2002 do protocolo que a APOIAR tem com o Minist\u00e9rio da Defesa e que nos permite pagar honor\u00e1rios aos m\u00e9dicos, aos psic\u00f3logos, \u00e0 assistente social em virtude das consultas que s\u00e3o dadas. Foi aprovada em 2001 a Lei (9\/2002) Contagem de Servi\u00e7o Militar. De real\u00e7ar que estas leis foram aprovadas por unanimidade na Assembleia da Rep\u00fablica.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Depois de um interregno de tr\u00eas anos voltou \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o como Presidente da Direc\u00e7\u00e3o. Aqui fica a entrevista, em jeito de balan\u00e7o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<h6>ENTREVISTA<\/h6>\n<p><strong>APOIAR: J\u00e1 s\u00e3o muitos anos de associativismo. Onde \u00e9 que come\u00e7ou e como \u00e9 que veio parar \u00e0 APOIAR?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Armindo Roque:<\/strong> Vim parar \u00e0 APOIAR por convite da Dr\u00aa Fani Lopes que me deu, em 1994, uma ficha para preencher. Ela tinha sido minha psic\u00f3loga em 1986, salvou-me a vida e a de muitos outros. Fomos os primeiros a ser tratados no Servi\u00e7o de Terapia Comportamental do Hospital J\u00falio de Matos dirigido pelo Dr. Afonso de Albuquerque. Foi a partir deste grupo de doentes e t\u00e9cnicos que surgiu a APOIAR. Participei na Assembleia Geral da funda\u00e7\u00e3o da APOIAR que se realizou no Anfiteatro do Hospital J\u00falio de Matos.<\/p>\n<p><strong>AP: Em todos estes anos de luta pelos direitos dos ex-combatentes quais foram os momentos mais importantes?<\/strong><\/p>\n<p>AR<strong>:<\/strong> Foram a Luta de 20 de Setembro de 1975 com a aprova\u00e7\u00e3o do Decreto Lei 43\/76 e as lutas de 1999-2000 que levaram \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Rede Nacional de Apoio; Lei 50\/2000 e \u00e0 Lei 9\/2002, a da Contagem do Tempo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0AP: Estando no final do segundo mandato enquanto Presidente da Direc\u00e7\u00e3o da APOIAR, que balan\u00e7o faz destes seis anos \u00e0 frente desta associa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>AR: O primeiro balan\u00e7o p\u00fablico e evidente foi \u00a0feito pelo Sr. Secret\u00e1rio de Estado da Defesa Nacional pela voz da sua adjunta Dr\u00aa Felicidade Batista no 16\u00ba Anivers\u00e1rio da APOIAR, ao classificar o nosso trabalho como not\u00e1vel. Os nossos associados quase todos os anos t\u00eam distinguido os nossos Relat\u00f3rios de Actividades e Or\u00e7amentos com louvores.<\/p>\n<p>No entanto, conforme foi dito pelo nosso Presidente da Assembleia Geral, Dr. Afonso de Albuquerque, tamb\u00e9m no \u00faltimo anivers\u00e1rio da APOIAR, que \u00e9 um caso in\u00e9dito serem os utentes do foro mental \u00a0a mandarem nos t\u00e9cnicos pois o que acontece \u00e9 geralmente o contr\u00e1rio. O facto de termos demonstrado que apesar da nossa defici\u00eancia mental somos capazes de orientar uma Associa\u00e7\u00e3o desta dimens\u00e3o e com esta complexidade foi a nossa maior vit\u00f3ria. As duas Direc\u00e7\u00f5es foram compostas por homens e mulheres com stress de guerra ou com stress de guerra secund\u00e1rio e levaram \u00a0a sua tarefa at\u00e9 ao fim. O segundo aspecto positivo que se relaciona com o primeiro \u00e9 que pass\u00e1mos a ter Assembleias Gerais \u201ccivilizadas\u201d onde foi poss\u00edvel discutir com toda a liberdade mas tamb\u00e9m com grande sentido c\u00edvico e com grande entusiasmo toda a mat\u00e9ria associativa e as grandes quest\u00f5es que se prendem com a unidade dos Combatentes e dos deficientes em geral. A isto n\u00e3o foi alheia a postura dos Presidentes da Assembleia Geral, Jos\u00e9 Arruda e Afonso de Albuquerque assim como dos Presidentes do Conselho Fiscal Ant\u00f3nio Santinho e \u00c1lvaro Santinho que foram sempre muito sensatos, ponderados, corajosos e da estatura moral dos grandes homens: e por \u00faltimo a participa\u00e7\u00e3o de mulheres nos \u00f3rg\u00e3os sociais e de uma maneira geral em toda a vida associativa, caso \u00fanico em associa\u00e7\u00f5es de combatentes.<\/p>\n<p>Tivemos dois tesoureiros de uma honestidade e profissionalismo a toda a prova que n\u00e3o se negaram a esfor\u00e7os e a grandes sacrif\u00edcios pessoais para servirem a APOIAR: refiro-me a Regina Andrade e a Jo\u00e3o Cruz que dirigiram esta important\u00edssima \u00e1rea financeira sem m\u00e1cula neste \u00faltimo mandato com o superior apoio de Daniel Justino.<\/p>\n<p>A \u00fanica pessoa que tamb\u00e9m esteve nestes dois mandatos como membro efectivo da Direc\u00e7\u00e3o foi o vice-Presidente Albino de Sousa, homem humilde, que n\u00e3o gosta de aparecer na fotografia, mais de fazer do que de falar mas que tem sido de uma grande import\u00e2ncia para a APOIAR sobretudo no desenvolvimento da vida associativa e na Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa das Associa\u00e7\u00f5es de Combatentes.<\/p>\n<p>Por outro lado o nosso jornal ganhou uma grande vivacidade e dinamismo pluralidade de opini\u00f5es devido ao trabalho conjunto desenvolvido pelo seu Director Marques Correia e por voc\u00ea, Humberto Silva enquanto t\u00e9cnico superior de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de real\u00e7ar que as nossas duas principais reivindica\u00e7\u00f5es foram atingidas: a compet\u00eancia de preenchermos o Modelo 2, cujo Protocolo com o Secret\u00e1rio de Estado da Defesa assinei em 2007: e a publica\u00e7\u00e3o da Lei 3\/2009 que regulamentou a Lei 9\/2002; para al\u00e9m disso o stress post-traum\u00e1tico, por proposta minha e com parecer do Dr. Afonso de Albuquerque, passou a constar da Lei da Tabela Nacional das Incapacidades, tamb\u00e9m em 2007.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea do movimento associativo passou-se praticamente do zero para mais de mil participa\u00e7\u00f5es em eventos: excurs\u00f5es, acampamentos, festas etc.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da Rede Nacional de Apoio, com as mesmas verbas e apenas com mais um psic\u00f3logo, pass\u00e1mos de mil consultas em 2004 para cerca tr\u00eas mil e quinhentas em 2009, um crescimento de 250%. Associaram-se mais 500 s\u00f3cios neste per\u00edodo, um crescimento de 14%.<\/p>\n<p>Ao n\u00edvel dos trabalhadores todas as situa\u00e7\u00f5es foram regularizadas de forma a deixarem de haver falsos recibos verdes, pois os trabalhadores encontravam-se com contratos prec\u00e1rios e a associa\u00e7\u00e3o quase nada descontava \u00a0Seguran\u00e7a Social, nem para o IRS. Agora est\u00e1 tudo registado e como tal s\u00e3o feitos os devidos descontos. Tudo \u00e9 feito com a m\u00e1xima legalidade e transpar\u00eancia. Quero no entanto real\u00e7ar que mesmo os trabalhadores independentes t\u00eam f\u00e9rias e licen\u00e7a de parto. Por outro lado, nestes seis anos, os ordenados foram pagos sempre o mais tardar at\u00e9 ao dia 25 de cada m\u00eas e sempre foram aumentados de acordo com a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e muito mais que isso a t\u00e9cnica administrativa, que tinha um ordenado miser\u00e1vel. Criou-se uma equipa coesa n\u00e3o houve despedimentos pelo contr\u00e1rio foi admitido mais um psic\u00f3logo e um t\u00e9cnico superior de comunica\u00e7\u00e3o social a tempo inteiro e admitimos h\u00e1 pouco tempo duas estagi\u00e1rias. Todas estas condi\u00e7\u00f5es foram fundamentais para um bom ambiente de trabalho e de confian\u00e7a m\u00fatua para que os nossos s\u00f3cios pudessem ter sempre o melhor apoio poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Um aspecto fundamental \u00e9 que todo o trabalho dos actuais \u00f3rg\u00e3os sociais \u00e9 gratuito conforme mandam os Estatutos da APOIAR, contrariamente ao que sucedia com o meu antecessor, M\u00e1rio Gaspar, que ganhava 500 euros mensais (100 contos) o que dava 6.000 euros por ano e em seis anos somaria 36.000 euros (trinta e seis mil) Ora isto multiplicado por dois ou tr\u00eas iria para os cem mil euros.<\/p>\n<p>Em contrapartida, com esse dinheiro pudemos contratar uma advogada, algo que n\u00e3o existia, e agora temos mais uma advogada estagi\u00e1ria a tempo inteiro para que possamos avan\u00e7ar com a coloca\u00e7\u00e3o de casos em tribunal pois alguns s\u00e3o verdadeiros esc\u00e2ndalos. Por outro lado o patrim\u00f3nio da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior hoje do que era h\u00e1 seis anos: s\u00f3 a m\u00e1quina de fazer os jornais vale 25.000 euros.<\/p>\n<p>Ao n\u00edvel dos grupos de ajuda m\u00fatua criaram-se tr\u00eas grupos e est\u00e3o para iniciar mais quatro: um no Algarve, outro em Our\u00e9m e um na Madeira para al\u00e9m de mais um de mulheres.<\/p>\n<p>Na nossa actividade externa fomos s\u00f3cios fundadores da Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa das Associa\u00e7\u00f5es dos Combatentes pertencemos aos seus \u00f3rg\u00e3os sociais e eu pr\u00f3prio sou Presidente do Conselho Fiscal.<\/p>\n<p>Como associados da CNOD temos tido uma ac\u00e7\u00e3o interventora o que \u00e9 muito importante para a forca das associa\u00e7\u00f5es de deficientes que na nossa opini\u00e3o se devem manter unidas e coesas \u00e0 volta de uma estrutura que as represente.<\/p>\n<p><strong>AP: O que acha que ficou por fazer?<\/strong><\/p>\n<p>AR: Foram os volunt\u00e1rios! Esta casa parece que tem um \u00edman que repele os volunt\u00e1rios. Existe uma estrutura muito pesada, estilo fun\u00e7\u00e3o publica, que n\u00e3o quer outras pessoas a trabalharem gratuitamente. Parece que t\u00eam medo que lhes tirem o emprego. N\u00e3o entendem que \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio: quanto mais movimento houver mais trabalho ter\u00e3o!<\/p>\n<div><strong>AP: Fazendo uma retrospectiva desde o in\u00edcio da Associa\u00e7\u00e3o APOIAR, acha que o stress de guerra \u00e9 hoje visto de maneira diferente do que era h\u00e1 15 anos?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>AR: N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma e isso deve-se sobretudo e antes de mais nada ao trabalho muito corajoso desenvolvido pelo Dr. Afonso de Albuquerque e pela Dr. Fani Lopes n\u00e3o h\u00e1 15 mas h\u00e1 25 anos. Foi sobretudo o seu trabalho: come\u00e7aram a salvar vidas humanas era uma calamidade e o exemplo vinha do que estava a acontecer com os combatentes da Guerra do Vietname. Mais tarde foi a pr\u00f3pria Federa\u00e7\u00e3o Mundial dos Antigos Combatentes e V\u00edtimas de Guerra que se come\u00e7ou a interessar pelo assunto e as coisas ganharam novo impulso obrigando mesmo o Governo a tomar medidas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com a Guerra do Iraque \u00a0e o elevad\u00edssimo n\u00famero de baixas do foro psiqui\u00e1trico (15%) este problema saltou para as bocas do mundo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nos \u00faltimos seis anos, em Portugal, temos visto sobretudo que as associa\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar pela nossa (um aumento de mais de 250%) t\u00eam dado mais apoio aos combatentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0Alguns dirigentes corruptos t\u00eam sido corridos, nomeadamente os anteriores presidentes da Direc\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o dos Veteranos de Guerra de Braga, e isso era um grande problema que dava uma p\u00e9ssima imagem \u00e0 problem\u00e1tica do stress de guerra e que prejudicava todas as associa\u00e7\u00f5es e todos os doentes. Com as medidas implementadas pela DGPRM do Minist\u00e9rio da Defesa Nacional, em fins de 2005, que visaram maior rigor e transpar\u00eancia na aplica\u00e7\u00e3o das verbas na Rede Nacional de Apoio o problema foi moralizado e ganhou maior credibilidade na comunidade cient\u00edfica, no meio castrense e na opini\u00e3o p\u00fablica em geral.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que se tem vindo a realizar tem dado um grande contributo nesse sentido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>\u00a0AP: Que import\u00e2ncia t\u00eam hoje as associa\u00e7\u00f5es como a APOIAR? Se n\u00e3o existissem o que seria dos ex-combatentes e da sua doen\u00e7a?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>AR: As associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais uma vez que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o tem capacidade, compet\u00eancia nem vontade pol\u00edtica para resolver o problema. Felizmente que com o protocolo com o MDN os combatentes podem recorrer a tr\u00eas \u00a0ONG: APOIAR; ADFA e APVG em breve tamb\u00e9m a ANCU. A Liga dos Combatentes desde h\u00e1 tr\u00eas anos que tamb\u00e9m j\u00e1 vem dando algum apoio o que \u00e9 bastante significativo do ponto de vista das mentalidades e das verbas que s\u00e3o para a\u00ed canalizadas, pois ainda h\u00e1 poucos anos dizia que s\u00f3 os cobardes sofriam de stress de guerra. Mas o mais importante foi o Congresso dos Combatentes realizado em 10 de Junho de 2008, por iniciativa da FEPAC, a que depois se agregaram todas as associa\u00e7\u00f5es de combatentes \u00a0e a Liga dos Combatentes, com um empenho muito especial. Juntaram-se tamb\u00e9m as associa\u00e7\u00f5es de militares profissionais numa unidade nunca vista nem antes do 25 de Abril o que \u00e9 muito salutar. Um dos assuntos mais discutidos nesse Congresso, que vai ficar para a Hist\u00f3ria, foi precisamente a problem\u00e1tica do stress de Guerra.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>AP: Em termos dos direitos dos combatentes o que acha que de mais importante se conseguiu e o que ainda falta conseguir para que consiga a dignidade reivindicada pelos ex-combatentes portugueses?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>AR: Em termos de legisla\u00e7\u00e3o temos da legisla\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada e a Rede Nacional de Apoio \u00e9 algo de muito importante e inovador embora n\u00e3o reconhe\u00e7a ainda os direitos das mulheres o que \u00e9 uma falta grave.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas o pior problema \u00e9 o de n\u00e3o se atribuir o grau de invalidez de acordo com os problemas que a defici\u00eancia provoca. A defici\u00eancia mental \u00e9 hoje das mais incapacitantes e abrange um n\u00famero cada vez maior de pessoas \u00e9 por isso um problema iminentemente pol\u00edtico nas suas diversas vertentes e que atravessa transversalmente toda a sociedade e v\u00e1rios minist\u00e9rios.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>\u00a0AP: Sente que ainda h\u00e1 uma divis\u00e3o hier\u00e1rquica nos ex- combatentes e que a unidade entre todos se ressente dessa divis\u00e3o? Ou seja, que h\u00e1 quem ache que existem reivindica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem sentido ou que s\u00e3o mais importantes do que outras?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>AR: Infelizmente h\u00e1! Acho que cada associa\u00e7\u00e3o defende os seus pr\u00f3prios interesses e eu n\u00e3o me imiscuo neles. O importante \u00e9 o que nos une: o problema da condi\u00e7\u00e3o militar; da sa\u00fade; do Estatuto do Combatente; das honras militares; da terceira idade, etc. No entanto, no Congresso onde foi amplamente discutida a quest\u00e3o da Condi\u00e7\u00e3o Militar foi reconhecido que ningu\u00e9m merece mais pertencer \u00e0 \u00a0fam\u00edlia militar que os Combatentes, sobretudo os que estiveram na frente de combate e que morreram ou ficaram com defici\u00eancias mentais ou f\u00edsicas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quanto a n\u00f3s \u00e9 mais um problema pol\u00edtico. Temos recebido provas de grande solidariedade por parte de \u00a0militares de todos os postos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>AP: Sente por exemplo que mesmo dentro das for\u00e7as armadas o stress de guerra \u00e9 ainda mal compreendido?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>AR: Creio que n\u00e3o! Eles viram as barbas a arder, viram o que se est\u00e1 a passar no Iraque e no Afeganist\u00e3o com 15% de baixas por Stresse de Guerra. O MDN tomou medidas: os nossos actuais combatentes e os seus familiares est\u00e3o a ser muito bem acompanhados e tanto quanto tem sido divulgado os problemas t\u00eam sido poucos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>AP: Numa altura em que o rel\u00f3gio aperta para muitos ex-combatentes, tendo em vista a idade avan\u00e7ada em que muitos j\u00e1 se encontram, que futuro v\u00ea para os in\u00fameros casos ainda n\u00e3o resolvidos de stress de guerra?<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>AR: Existem muitas coisas que podem ser feitas sendo que a unidade na luta de todas as associa\u00e7\u00f5es de \u00a0combatentes e de todas as associa\u00e7\u00f5es de militares e para-militares s\u00e3o fundamentais para uma causa que nos \u00e9 comum: os policias, os soldados da GNR s\u00e3o cada vez mais v\u00edtimas de stress post traum\u00e1tico com muitos casos de suic\u00eddio e grande n\u00famero de baixas psiqui\u00e1tricas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em segundo lugar a lei tem de ser cumprida no que respeita aos prazos: os processos j\u00e1 n\u00e3o demoram tr\u00eas ou quatro anos no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para fazer o Modelo 2, mas demoram o mesmo tempo na CPIP para darem um parecer e demoram mais de oito ou nove anos no total.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tem de haver uma den\u00fancia p\u00fablica e os casos devem ser postos em tribunal.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista por: Humberto Silva Prestes a terminar o seu terceiro mandato, o segundo e \u00faltimo enquanto Presidente da Direc\u00e7\u00e3o da APOIAR, Armindo Roque faz ao jornal \u201cAPOIAR\u201d um balan\u00e7o dos \u00faltimos doze anos desta institui\u00e7\u00e3o de apoio aos ex-combatentes v\u00edtimas de stress de guerra. 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