O reencontro com o trauma

Por: Nuno Duarte(*):

Acompanhando a presença em cartaz do filme “Valsa com Bashir”, a Atalanta Filmes, em parceria com o Le Monde Diplomatique, organizou três debates que tiveram lugar no cinema King durante o mês de Janeiro, sempre pelas 23h00, após a sessão das 21h30. Destacamos nesta edição em particular a sessão decorrida no passado 23 de Janeiro intitulada “O trabalho de memória e os traumatismos do pós-guerra”. Este debate pôde contar com a presença de Afonso Albuquerque (Médico Psiquiatra), Armindo Roque (Presidente da APOIAR) e António Louçã (Historiador e jornalista da RTP).

Começou por intervir António Louçã com uma reflexão interessante sobre a presença da memória colectiva suscitando interesse na sua abordagem ao conceito de trauma colectivo e referindo-se à necessidade dos povos recordarem o seu passado para terem poderem construir um futuro.

Armindo Roque optou por uma intervenção de análise sobre o carácter discriminatório que o papel de um doente na sociedade sempre comportou, em particular, o de deficiente. Acabou a partilhar a sua experiência pessoal, como ex-combatente com stress de guerra, e a sua visão emocionada suscitou aplausos por parte do público visivelmente empático com a dor manifestada.

Finalmente, Afonso de Albuquerque partiu da experiência do realizador do filme para clarificar alguns conceitos relacionados com a Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, nomeadamente o conceito de trauma, amnésia e psicoterapia de exposição – que são algumas das ideias fundamentais para se compreender o Stress de Guerra.

Depois das três reflexões concluídas abriu-se o espaço às dúvidas, inquietações e contradições que a audiência aproveitou para expressar com emoção. Assistiu-se a uma troca de ideias entre os diversos intervenientes que, evidentemente, nos deixou confiantes sobre a abertura que a sociedade começa a dar à temática do Stress de Guerra, mas com reservas relativamente à forma como se aborda um assunto ainda delicado e com uma atenção especial aquilo a que chamamos “falar sobre…”

Concluiu-se que “falar sobre…” é importante, mas é necessário perceber se conseguiremos criar um conhecimento maior e mais aprofundado da realidade vivida pelos ex-combatentes ou se nos manteremos com uma memória colectiva superficial e distante dos traumas psicológicos provocados pela guerra.

A VALSA COM BASHIR

A “Valsa com Bashir” de Ari Folman é um documentário animado sobre o reencontro de um homem com a sua memória. Esse homem é o próprio realizador que esteve presente na invasão israelita do Líbano, em 1982, e, através do filme, aborda o massacre de palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, realizados por cristãos falangistas, com a ajuda de soldados israelitas (que, apesar de não terem estado nos campos, ao iluminarem a ofensiva dos cristãos falangistas durante a noite facilitaram a sua acção violenta). Tivemos a oportunidade de ver na edição anterior do jornal uma breve referência à história do filme e ao enquadramento político do mesmo. Assim sendo, como psicólogo clínico, penso ser de maior interesse, nestas linhas, uma reflexão sobre o filme reportando aos conceitos de memória traumática e amnésia psicogénica.

A inquietação no visionamento do filme surge logo nas primeiras imagens. Tudo começa com sonhos perturbadores. Um pesadelo. 26 cães raivosos que ladram e uivam a correr pelas ruas só parando junto à janela de um homem que os fita do alto da sua casa. Este homem, um antigo camarada de armas de Ari Folman, relata-lhe este pesadelo enquanto conversam num bar. 26 cães. Tantos quantos o antigo soldado, por não conseguir matar pessoas, teve de matar nas operações efectuadas pelo exército israelita. A sua missão era matar os cães que, nas aldeias palestinianas onde o exército israelita chegava de noite, começavam a ladrar alertando a população.

Ao ouvir o relato do seu amigo Ari Folman percebe que não tem memórias da guerra e inicia a sua viagem ao passado. Ao seu passado. A representação da memória está muito bem conseguida através da animação, pois imprime ao filme um carácter eminentemente onírico e alegórico onde as cores e as imagens traduzem emoções tão variadas como o horror, medo e uma espécie de surrealismo colectivo e individual que nos reporta a um limiar nebuloso entre a realidade objectiva dos factos e a realidade subjectiva da memória.

É na exploração da realidade subjectiva da memória que o filme nos cativa e agita. Sabemos que um trauma surge de uma experiência de vida que vai para além do que o ser humano está preparado ou tem capacidade para lidar. Para que constitua trauma a vivência desta experiência é vivida com horror intenso, medo, ameaça à própria vida ou à vida de alguém próximo e querido (no caso da guerra, os camaradas têm este lugar especial). Uma das formas que o ser humano possui para lidar com o trauma é arquivar o acontecimento, em bruto, nos alçapões da memória. Ele vive, a partir daí, na expectativa de que o seu cérebro nunca se lembre de ir buscar a informação, sobre tal vivência tão dolorosa, que foi bloqueada. A esta estratégia de bloqueio involuntário da memória traumática damos o nome de amnésia psicogénica.

RECUPERAR A MEMÓRIA PERDIDA

No caso do filme, a amnésia psicogénica representa um mecanismo de defesa utilizado pelo jovem soldado Ari Folman para conseguir lidar com a experiência que vivenciou. Assim, é como se não enfrentasse a realidade, ou como se não estivesse estado lá, pois o cérebro não consegue processar aquelas emoções que estão para além da realidade aceitável. Ao assistirmos ao desdobrar das memórias traumáticas de Ari Folman vamos compreendendo a necessidade do realizador em recuperar as memórias perdidas. A angústia de ter uma parte de si tão importante que não é recordada é o motor do processo de descoberta.

É então, que começam a fluir pedaços de memórias fragmentadas entre imagens, conversas e sonhos.

Uma das mais poderosas imagens do filme retrata um grupo de três jovens rapazes nus, tristes e de olhar ausente, a saírem da água rumo à cidade de Beirute (retratada por prédios devastados e vazios, destroços, palmeiras a ondular e foguetes a iluminar os céus de laranja). É com esta imagem que a viagem interior de Ari Folman se inicia e através dela nós, espectadores ainda confusos, vamos percebendo o sentido da narrativa pessoal que se começa a desvendar.

Tal como na terapia que utilizamos para o tratamento do PTSD de Guerra, o realizador procura estímulos e histórias de outros camaradas que o ajudem a compreender o seu sonho e a razão pela qual não se lembra de tais acontecimentos de guerra. Inicia-se então o processamento da memória que está em bruto (a memória traumática) em conjunto com o processamento das emoções que estão associadas a essa memória (medo, horror, tristeza) – é este voltar atrás no tempo, através das diversas conversas que assistimos durante o filme, que permite ao realizador explorar diversos aspectos da memória e dar-lhes um sentido que permita integrá-los na sua narrativa de vida.

Este processo de exploração e consolidação da memória é como termos um puzzle incompleto em cima de uma mesa que queremos terminar (as peças do puzzle são as memórias da sua vida, interligadas, mas falta algo para dar sentido ao puzzle, para se perceber o quadro completo). Cada peça ausente do puzzle é revestida de um significado próprio e traz consigo emoções dolorosas. No entanto, para conseguir completar o puzzle é necessário olhar para as peças que estavam de fora (memórias traumáticas) e encaixá-las no sítio certo. O acto de encaixar as peças, ou seja, processar as memórias traumáticas ligando-as às restantes memórias da nossa existência só se torna possível através da exposição a estímulos ou imagens que ajudem a recordar o momento traumático, assim como às emoções que o acompanham.

REENCONTRO COM A DOR

A tragédia e a beleza deste filme resumem-se ao reencontro de um homem com a dor do que viveu, percurso indissociável de um reenquadramento consigo mesmo enquanto pessoa.

Por muito difícil que seja este processo, a vontade de compreender uma parte de si move Ari Folman durante todo o filme. E consegue-o. Conseguindo ainda transportar-nos para essa fatalidade que é a guerra.

Uma mensagem recorrente ao longo do filme reside num retrato de jovens perdidos, confusos e assustados rumando alucinados até Beirute. Esta mensagem é pautada por diversas cenas tocantes da qual destaco a entrada pelo interior do Líbano feita por jovens soldados israelitas, assustados, dentro de um blindado que disparam ininterruptamente em todas as direcções contra um inimigo que eles não conseguem ver: o medo.

Uma segunda mensagem absolutamente arrepiante assume toda a sua intensidade nas últimas cenas do filme, com a consciência da dimensão do massacre e da permissividade com que este aconteceu. O que sentimos é a completa desolação quando nos é revelada a catástrofe e dor que um ser humano consegue infligir noutro.

Neste filme, o horror absoluto mostra as suas diferentes faces.

E nós ali permanecemos, espectadores presos à cadeira da sala de cinema, em silêncio, conversando com o que ainda resta de humanidade dentro de nós.

*(Psicólogo Clínico / Psicoterapeuta
Cognitivo-Comportamental

Publicado originalmente no nº 56 de Janeiro e Fevereiro de 2009 do Jornal APOIAR

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