A guerra que nunca acabou: o envelhecimento dos antigos combatentes da Guerra Colonial

Antigo combatente português idoso em reflexão

Cinco décadas depois do fim da Guerra Colonial, milhares de antigos combatentes continuam a viver com as marcas de um conflito que não terminou quando regressaram a casa. O envelhecimento dos antigos combatentes da Guerra Colonial veio reabrir feridas antigas e expor novas formas de vulnerabilidade, numa geração que ainda procura pleno reconhecimento.


Quando Portugal pôs fim à Guerra Colonial, em 1974, muitos acreditaram que o regresso a casa significaria o início definitivo de uma vida normal.

Para milhares de homens, porém, a guerra não terminou com o embarque de volta à metrópole. Continuou em silêncio, instalada nas memórias mais profundas, nos pesadelos recorrentes, nas dificuldades em reconstruir uma família, manter um emprego ou simplesmente encontrar a paz.

Entre 1961 e 1974, o conflito travado em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau mobilizou entre 800 mil e um milhão de militares. Eram, na sua maioria, jovens que interromperam estudos, projectos de vida e carreiras precoces para cumprir o serviço militar obrigatório. Ao lado deles combateram também milhares de africanos recrutados localmente pelas forças portuguesas, muitos dos quais acabariam esquecidos após a independência das antigas colónias.

Hoje, passados mais de 50 anos, a maioria destes homens ultrapassou a barreira dos 70 anos. A idade trouxe consigo um fenómeno que investigadores e profissionais de saúde conhecem bem: o envelhecimento tende a fazer regressar memórias traumáticas que durante décadas permaneceram escondidas sob o peso da vida activa e profissional.

O Gatilho do Tempo e o Regresso do Trauma

A reforma, a perda de autonomia, o desaparecimento de familiares e amigos ou o isolamento social tornam-se, muitas vezes, o detonador de recordações que nunca chegaram verdadeiramente a desaparecer.

O resultado pode traduzir-se em episódios de ansiedade, depressão, perturbações do sono ou na reactivação da Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT), uma condição invisível que continua a afetar muitos antigos combatentes.

Mas nem todos viveram a guerra da mesma forma. As experiências variaram profundamente entre os três teatros de operações e dependeram das funções desempenhadas, da intensidade dos combates, das perdas sofridas e das condições encontradas no regresso. Também os recursos pessoais, o apoio da família e a capacidade de adaptação influenciaram o percurso de cada um.

É esta diversidade de trajetórias que a Perspetiva do Curso de Vida, desenvolvida pelo sociólogo norte-americano Glen H. Elder Jr., ajuda a compreender. A teoria defende que os grandes acontecimentos históricos produzem impactos diferentes consoante a fase da vida em que ocorrem e as condições sociais de cada indivíduo.

No caso dos antigos combatentes portugueses, a guerra coincidiu precisamente com a transição para a idade adulta, um período decisivo para a construção da identidade, da carreira profissional e dos projetos familiares. Para muitos, essa etapa ficou profundamente condicionada pela experiência da guerra.

O Impacto Familiar: As Feridas Transmitidas

As consequências ultrapassaram, contudo, a esfera individual. Ao longo dos anos, esposas, filhos e outros familiares aprenderam a viver com homens marcados por experiências que raramente conseguiam verbalizar. O silêncio tornou-se uma linguagem comum em muitas famílias.

Os especialistas falam em traumatização secundária e em transmissão intergeracional do trauma para descrever o impacto que o sofrimento psicológico dos antigos combatentes pode exercer sobre aqueles que lhes são mais próximos. Ansiedade, hipervigilância, dificuldades emocionais e problemas nas relações familiares surgem, frequentemente, associados a esta convivência prolongada com o trauma.

É também por isso que os encontros de antigos combatentes assumem um significado que vai muito além da nostalgia. Nesses momentos, reencontram pessoas que partilham um código comum, capaz de compreender experiências difíceis de explicar a quem nunca viveu uma guerra. A memória coletiva transforma-se, muitas vezes, num importante instrumento de reconhecimento e reconstrução pessoal.

Rede de Apoio e Reconhecimento

Apesar dos avanços registados nos últimos anos, muitos antigos combatentes continuam a considerar que o reconhecimento público chegou demasiado tarde.

O Estatuto do Antigo Combatente (2020): Representou um marco importante, reforçando apoios sociais, benefícios na saúde, comparticipação de medicamentos e medidas de proteção para antigos militares e respetivas famílias.

Ação Civil: Associações como a ACUP, ADFA, a ANCU, a APOIAR e a Liga dos Combatentes desempenham um papel essencial no acompanhamento psicológico, apoio domiciliário e combate ao isolamento.

Os Desafios do Interior e o Limbo dos Combatentes Africanos

Ainda assim, persistem desafios significativos. Muitos antigos combatentes vivem hoje com pensões modestas, frequentemente insuficientes para responder ao aumento das despesas de saúde próprias do envelhecimento. Nas regiões do interior, onde os serviços especializados são escassos e as redes de apoio mais frágeis, o risco de isolamento social torna-se particularmente elevado.

A situação dos antigos combatentes africanos revela-se ainda mais dramática. Muitos combateram ao serviço de Portugal e acabaram por ficar numa espécie de limbo histórico após as independências, sem reconhecimento pleno por parte dos novos Estados e, durante décadas, também sem uma resposta adequada das autoridades portuguesas.

Cinco décadas depois do fim da Guerra Colonial, o país conhece hoje melhor a dimensão militar e política daquele conflito. Conhece menos, talvez, o peso que continua a exercer sobre aqueles que o viveram.

O envelhecimento dos antigos combatentes veio lembrar que algumas dessas feridas não cicatrizam com o tempo. Apenas se tornam mais silenciosas. E é precisamente esse silêncio que continua a desafiar uma sociedade que ainda procura reconciliar-se com uma das páginas mais complexas da sua história contemporânea.


Resumo da alocução de Sofia Costa Pires, Assistente Social na APOIAR, por ocasião do I Congresso de Saúde Mental no Serviço Social na Ordem dos Assistentes Sociais, dia 7 de Julho de 2026. A apresentação completa pode ser consultada aqui: 

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